terça-feira, 21 de julho de 2009

Streptococcus

Eu e meu irmão passamos um bom tempo da infância tomando benzetacil.
Tínhamos algum problema que, na minha versão infantil, era "um vírus no coração que, se fosse pra corrente sanguínea, poderíamos morrer". Na minha cabeça era um bom motivo pra cair na agulha 1 vez por semana.


Quem aplicava era meu pai. Ele chegava do trabalho e os trabalhos começavam.
Quem já tomou benzetacil sabe: um vidrinho com pó e uma ampola com um líquido dentro. Meu pai injetava o líquido dentro do vidro pra dissolver o pó. Nosso trabalho era ficar balançando pra dissolver, porque a dor da benzetacil vem da espessura do líquido. Imagina injetar um líquido grosso no músculo da bunda de uma criança. Lembro que eu ficava um tempão balançando meu vidrinho pra dissolver bastante e doer menos.

Meu irmão balançava 5 minutos. E quando chegava a vez dele, chorava feito um condenado, ficava com a bunda toda roxa e minha mãe lá, com trombofob e bolsa de água quente.

Na minha vez acontecia o seguinte: eu tentava relaxar ao máximo porque meu pai dizia que se contraíssemos o músculo da bunda, a agulha podia quebrar lá dentro. Eu tinha um medo do caralho que isso acontecesse. Não podia nem imaginar uma agulha quebrada, presa dentro da minha bunda. Ok, voltando. Eu deitava, meu pai enfiava a agulha e a dor começava bem leve. Ia aumentando, aumentando, aumentando... E quando eu pensava que ia morrer, acabava.
Então, na real, pra mim era mais ou menos de boa. Ou pelo menos BEM melhor que meu irmão.

Um belo dia, ou melhor, noite, estávamos em casa eu, meu irmão e minha mãe.
Era dia de injeção e estávamos na maior expectativa pra chegada de meu pai.
Ele tava demorando mais do que o normal e foi aí que tive a ideia brilhante!

"Mateus, vamos fingir que estamos dormindo, daí quando meu pai chegar ele vai ficar com pena de acordar a gente pra dar injeção". Fiz isso muito mais por ele do que por mim, claro.
Ele aceitou, obviamente. Minha mãe ligada no movimento, ficou na dela.

Arrumamos as camas, apagamos a luz e deitamos. Tudo esquematizado.

Meu pai chegou e foi até a porta do quarto: "Já estão dormindo? Que pena, não vão ver o presente que eu trouxe...".

O que parecia impossível aconteceu. Meu irmão deu um pinote da cama, levantou e saiu gritando: "Eu não tô dormindo não, eu não tô dormindo não!!!!".
Eu lá, quietinha, pensando: "Tenho um irmão imbecil".

Meu pai respondeu: "Ah, mas sua irmã está...".
Irmão imbecil: "Ela não tá dormindo não, tá fingindo pra não tomar injeção!!!".


Agora, tentem imaginar a minha cara.
Aliás, tentem imaginar o presente.



...


Um vidrinho com um pó pra dissolver.

...


Só pra constar: a doença era beta hemolítico. Quem tinha era Mateus, mas todo mundo caiu na benzetacil por precaução. ¬¬

terça-feira, 7 de julho de 2009

Pinheira

A chefe da gangue dos pirralhos era minha tia (e madrinha) Jude.
Morávamos na mesma casa: eu, minha mãe, meu pai, minha vó e ela (no primeiro andar) e minha bisavó e uma tia avó no andar superior.

Todo sábado a família inteira se reunia lá pra almoçar. E Jude sempre dormia depois do almoço.
E as nossas brincadeiras tinham que ser mais silenciosas por causa do cochilo dela.

Ela ameaçava: Se vocês me acordarem eu penduro um por um, de cabeça pra baixo, na pinheira.

Essa pinheira era massa. Ficava no quintal, quase grudada num muro, que dava pra um terreno baldio.

Num sábado qualquer, acabamos de almoçar e Jude foi dormir.
Recomeçamos nossa brincadeira e lá pelas tantas, Vitor (o caçula das crianças até então) entra na sala e vê Jude sentada no sofá.

Vitor diz: Não me pendure na pinheira nããããoooo!!!!!!!!!!! Eu juro que não faço mais nadaaaaa!


Em tempo: Jude já tinha acordado por conta própria e Vitor não tinha feito nada de errado.